sábado, 12 de junho de 2010

Vista cansada





Namaste!

Algumas pessoas passam pela vida totalmente cegas, não conseguem ver a beleza que há numa poesia, num quadro, num livro, numa música, não viajam com a alma, não sonham com amor e carinho, não mostram nenhum interesse pelo sentimento humano, não enxergam nem dão valor aos que estão ao seu lado, seus olhos só alcançam a si mesmas, numa atitude egoísta e individualista, materialista até... de somente TER e nunca SER.

Essas pessoas precisam perder realmente para valorizar...que triste isso!

Quem passa pela vida procrastinando relacionamentos, sentimentos, emoções e afetividade, nunca viveu e se não acordar a tempo...nunca viverá. Quem fere sua criança interior, perde a inocência mágica da alegria desinteressada, a curiosidade primária que nos leva a conhecer o belo na essência que se manifesta através da mente e visão infantis...Quem perde sua essência infantil perde sua espontaneidade. Vira máquina do ego materialista e egoísta!

Há tanta beleza no mundo...pequenas coisas tão sutis e de uma beleza encantadora capazes de nos emocionar intensamente e muitos não conseguem ver...os cegos não enxergam pessoas ao lado, simbolismos diários, chacoalhões que os acordem, e nem tão pouco, a beleza magnifica da natureza...

Essas pessoas "cegas" nunca poderão dizer que estiveram vivas...

A vida está presente no sutil, nas boas emoções, na pureza do amor, na inocência da criança e no HOJE, porque amanhã pode ser muito tarde para viver !
Rose Colaneri

Como diz o sábio Rubem Alves:
Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem.
O ato de ver não é coisa natural.
Precisa ser aprendido.
Se os olhos estão na caixa de ferramentas,
eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática.
Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas
- e ajustamos a nossa ação.
O ver se subordina ao fazer.
Isso é necessário.
Mas é muito pobre.
Os olhos não gozam...
Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos,
eles se transformam em órgãos de prazer:
brincam com o que vêem,
olham pelo prazer de olhar,
querem fazer amor com o mundo.
Os olhos que moram na caixa de ferramentas
são os olhos dos adultos.
Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças.
Para ter olhos brincalhões,
é preciso ter as crianças por nossas mestras.
Vista cansada

Otto Lara Resende


Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.

Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.

Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê.
Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo.
O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê.
Há pai que nunca viu o próprio filho.
Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas.
Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos.
É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.


Texto publicado no jornal “Folha de S. Paulo”, edição de 23 de fevereiro de 1992.

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