sábado, 23 de maio de 2009

O Eterno Feminino - Aquela que ouve os sons do mundo


Namaste!

Uma das belezas do budismo é que ele assemelha-se a uma árvore. Ao longo de 25 séculos de história, inúmeras sementes têm germinado, florescido e frutificado nas mais diversas culturas e com os nomes mais diferenciados, gerando assim veículos, escolas, linhagens, praticantes anônimos, etc. No Brasil, aos poucos, o Darma também vai crescendo.

Sem pressa, como é próprio deste duas vezes milenar caminho. No início do verão americano de 1905, o Reverendo Soyen Shaku, abade de Engaku-ji e Kencho-ji, Kamakura, Japão, chegou à costa oeste dos EUA para dar ensinamentos budistas inéditos na América.

Tendo ficado mais de um ano em solo americano, em uma de suas aulas falou sobre Kuanon, a natureza da iluminação, bondade, amor e compaixão em forma feminina. Kuanon é também conhecida como Kandisai, Kanon, Kuanin e Kanzeon.

Na viagem, acompanhou o autor um tradutor muito especial, mais tarde reconhecido como um importante mestre e erudito a quem o Ocidente deve muito de sua abertura à compaixão de todos os Budas, Daisetz Teitaro Suzuki. Em 1906, pelo esforço de Suzuki, esses ensinamentos preciosos estavam editados e publicados sob o título "Sermons of a Buddhist Abbot", de onde Padma Samten compilou o texto que segue.

O tópico do ensinamento de hoje é a Bodisatva Kuanon ou Deusa da Bondade, como é comumente conhecida. Não irei fazer investigações históricas dessa deidade, ou bodisatva, como se fala na terminologia budista. Não importa aqui a origem ou linhagem de Kuanon, que era originalmente a divindade masculina da mais elevada energia, Avalokitesvara.

De acordo com nosso conhecimento presente, Kuanon passou a ser identificado com sua consorte Tara, e não é mais uma divindade masculina a que representa a energia mais elevada, mas a deusa da bondade e do amor, o princípio do amor universal. Nós a tomaremos como a entendemos nos dias atuais.

Kuanon não é mais uma divindade hindu, mas foi completamente naturalizada ao Extremo Oriente.

Em minha opinião, as necessidades religiosas do homem são essencialmente as mesmas, tenha ele um nascimento acidentalmente ocidental ou oriental. Quando sente suas necessidades, trata de encontrar os meios para supri-las segundo onde esteja situado, de acordo com sua história, tradição, folclore e crenças. Do material assim obtido, constrói suas necessidades e, com a clareza intelectual, elabora-as e leva à perfeição. Quando vemos construída e pronta essa devoção religiosa do homem, olhando-a à parte de suas relações históricas, a apreciamos como uma manifestação da natureza interna do homem. Nossa abordagem de Kuanon é deste ponto de vista.

Kuanon consiste de duas palavras, kwan e on, uma abreviação de uma expressão mais completa, Kuan-ze-on. Kuan literalmente significa "ver", "perceber", ou "olhar". Esta percepção, no entanto, nem é física, nem sensorial, mas espiritual, interna e transcendental é é uma intuição do verdadeiro significado das coisas com o olho mental que todos os seres possuem. O caractere seguinte, ze, significa mundo ou universo, incluindo tudo o que existe; finalmente, on, "som" ou "voz".

Em conjunto, Kuan-ze-on significa "aquela que ouve os sons do mundo". O som que Kuanon percebe, é preciso salientar, não é físico, não tem qualquer referência à ondulação da atmosfera que chega aos nossos nervos e é interpretada como som. Quando vemos com o olho espiritual o que passa ao redor, as coisas são todas conversíveis umas nas outras: som é cor, cor é sabor, odor é som, etc. Do ponto de vista sensorial isso seria incompreensível, pois o que os olhos vêem é cor, o que os ouvidos ouvem é som, e são completamente irredutíveis uns aos outros. Nas regras de individuação do mundo fenomenal as coisas não podem ser outras do que parecem aos nossos sentidos particularizadores.

Mas quando transcendemos os limites da fenomenalidade e olhamos internamente a razão verdadeira das coisas, todas as separações de formas e particularidades desaparecem, os sabores se tornam cheiro, as visões, audição, etc. é o que caracteriza a operação mental além das individualidades.

Sendo assim, aquele que ouve os sons do mundo é nem mais nem menos aquele cuja sabedoria espiritual foi profundamente no verdadeiro fundamento das existências, cuja compreensão toca a tudo e entende a razão das coisas, porque são de um jeito e não de outro, e cujo pensamento e vida estão em perfeita harmonia com a mente que controla o destino do universo. Atravessou, assim se diz, para a outra margem, é um buda, um iluminado. Se desejamos atingir este estado de espiritualidade, precisamos treinar a não nos distrair com o fenômeno das coisas, mas focar a essência última da existência, que é livre de todos os modos de dualidade.

Aí, o percebido e o percebedor não são dois; o ouvir e o que é ouvido não são separados; o "eu" e o "não-eu" não são o que parecem aos sentidos. Existe apenas uma realidade e podemos chamá-la por qualquer nome. O budismo não é radical nessa questão de designação. Você pode chamar de Deus, razão, vida, talidade, ou amor, mas perceba que não pode fazer disso algo além do universo, ou uma mera abstração que nada tem a ver com este mundo concreto.

Para evitar essa incompreensão de parte de quem não tem treinamento, nessa relação particular o budismo usa a expressão "som", afirmando que todas as coisas são expressão do som único no qual cada nota que soa está sintetizada no eterno. Não apenas o vento que sopra, as ondas que rugem, a flauta que assobia, mas as montanhas, rios, oceanos, sóis, céus, tudo o que existe, nada mais são do que as muitas variações do som eterno, derradeiro, unificador. Não pense que isso é demasiadamente escondido ou esotérico; apenas treine-se em meditação budista e perceberá a correção do que falo.


Primeiro, reconheça a unidade do princípio único e veja que está em todas as coisas. Então certamente perceberá o ponto, aqui apresentado de modo um tanto místico. Freqüentemente encontramos, associada a Kuanon, a deusa da bondade, a expressão bodisatva (Bosatz em japonês e Pu sa em chinês). É um ser senciente cuja essência é sabedoria, um título geralmente dado aos seres de grande iluminação, aos grandes santos budistas ou, de fato, a qualquer sábio de qualquer denominação de fé.

O que constitui a essência desse ser é o amor com o qual se dedica ao benefício dos outros. Um bodisatva negará a si mesmo ao perceber que assim salvará seus companheiros do sofrimento, miséria, ignorância e engano a respeito de si próprios, ou pode afirmar-se ao perceber que isso trará melhor auxílio. Seu único objetivo é auxiliar os outros, seu único princípio de vida é o amor, e o meio que emprega é a sabedoria. Move-se pelo amor e regula sua ação pela sabedoria.

Sua fonte de amor e inexaurível, cada sensação, pensamento, desejo, resolução e tudo mais vem desta fonte divina. Seu amor, no entanto, não se move cegamente, mas do modo mais inteligente, pois ele não só é puro de coração como tem iluminação na mente. Ele reconhece o aspecto ilusório de sua identidade que, se enfim existe, se dá nos outros e não em si mesmo, abarca todo o universo ainda que não palpite mesmo na mais diminuta parcela de sua própria pessoa.

Kuanon, portanto, não apenas é amor encarnado, mas a representação da sabedoria e iluminação. Como temos a sabedoria mais enfaticamente representada em bodisatvas tais como Monju (Manjurshri em sânscrito) e Seshi, vemos em Kuanon a virtude de amor e compaixão como aspectos predominantes, e por essa razão sua associação à forma feminina. Ainda que as outras qualidades estejam presentes, ela atrai por sua ternura, amor, compaixão, sensibilidade ao sofrimento dos outros e auto-sacrifício.

Sem essas qualidades, ainda que intelectualmente brilhante, de presença majestosa, ela seria honrada e respeitada, mas não seria mais objeto de adoração e culto pois ninguém mais viria ao chão diante dela e, de joelhos, chamá-la, clamar por seu amor ilimitado, puro, impessoal e enobrecedor.

Kuanon, portanto, é melhor reconhecida em forma feminina. Quando de forma mundana falamos do amor, logo associamos à falta de discernimento e exclusividade, uma vez que amor é constraste para o ódio e está associado ao impulso. Devido a este último, o amor necessariamente discrimina e está cheio de parcialidades e focado. Assim, move-se sem ver as conseqüências e desconhece seu propósito último.

Mas o amor que constitui o ser de Kuanon não é esse tipo de amor, mas o que é mais abrangente e universal, uma vez que abarca a tudo e a todos, justos e injustos, bons e maus, crentes e sacrílegos. Neste amor não há traço de parcialidade ou discriminação. É como a chuva que cai em todas as formas de vegetação, ainda que cada planta seja beneficiada segundo suas particularidades.

É ainda como o sol que brilha para todas as formas de vida, enquanto que estas fazem uso do brilho do sol de acordo com sua própria natureza. O sol ou a chuva, assim, beneficiam a tudo sem qualquer pensamento de discriminação. O amor de Kuanon por todos os seres sencientes não é mais do que a exibição dessa energia universal de animação e iluminação que cria formas e regula o mundo.

Creio que tenha ficado claro a vocês que em tal amor espiritual como o de Kuanon, não há nada que seja comercial, nem qualquer princípio mercenário que diga "dou-lhe isto e espero tal ou qual favor". Kuanon abomina este espírito dos tempos modernos que penetra quase que cada fibra de nossa civilização. Se quiser rezar a Kuanon, faça em coração e sabedoria. É necessário manter o coração limpo de impurezas, egoísmos e ignorância. É necessário ter nossos impulsos egoístas batizados pela água da iluminação.

Só quando estiver de coração puro e espírito humilde é que será conduzido à presença da Bodisatva Kuanon, tornando-se receptáculo de suas bênçãos infinitas. A graça não é um favor especial conferido a alguém destituído de mérito, mas um resultado legítimo da auto-purificação.

Os budistas reconhecem que o amor emana da sabedoria, da prática de samadi. Enquanto estamos mentalmente operando estimulados apenas pelos sentidos físicos, não somos capazes de destruir a parede da individualidade e vivenciar o princípio universal do amor. Assim, nosso amor é limitado, impulsivo, exclusivista. Para atingir a capacidade de amar como Kuanon, precisamos sacudir, através da contemplação lúcida e auto-disciplina, nossos corruptos andrajos egóicos.

Os que não refletem, usualmente vivem na superfície das coisas. São incapazes de identificar e sistematizar as impressões mutáveis que recebem dos sentidos. Movem-se de acordo com impulsos cegos e desejos egóicos que lhes atam mãos e pés. Não se movem pela razão, não penetram o fundo das coisas onde repousa o sentido da existência. Podem mesmo realizar ações nobres, que ainda assim não espelham a iluminação, mas a loucura. O que é feito através de ajustes e inícios, não se constitui em sabedoria.

O amor que se origina de uma fonte impura não pode ser o fundamento de nossas vidas religiosas. Quando o amor de Kuanon se faz concreto, expressa-se de várias formas, de acordo com as necessidades das circunstâncias. No sutra Pundarika, Kuanon é vista se manifestando em diferentes personagens. Quando vê que é mais efetivo um certo modo de expressão, ela assume esta forma e, através dela, exerce toda sua influência.

Ela poderá manifestar-se como filósofo, comerciante, erudito, pessoa de nascimento inferior ou o que seja mais apropriado na ocasião, dentro do propósito único de liberar todos os seres da ignorância e egocentrismo. Portanto, onde houver um coração tateando na escuridão, Kuanon não falhará em estender seus braços acolhedores.

Essa imagem de Kuanon, parece-me, teve grande influência no caráter nacional dos cidadãos do meu país. O carinho que manifestem, é sempre visto como originado do amor e compaixão da própria Kuanon. Os que viajaram através do Japão devem ter visto os múltiplos templos dedicados a ela e a grande quantidade de pessoas que ali se reúne, oferecendo incenso, flores e preces. Pode parecer uma prática alicerçada na superstição, mas vejam o benefício e alívio espiritual que traz.

De coração simples, eles crêem na resposta de Kuanon a suas preces fervorosas. A onda de amor universal está vibrando em todos os seres sencientes, e quando esta nota interna é tocada através do mais profundo sentimento espiritual que alguém possa ter, vibra, e a vibração chega à verdadeira fonte da vida, que é o amor de Kuanon, e lá se dá o fenômeno da comunhão.

Assim o princípio universal do amor torna-se conhecido ao coração humano. Parece-me que a Virgem Maria do cristianismo corresponde à divindade budista da bondade, a Bodisatva Kuanon. A natureza humana em toda a parte parece ansiar pelo que Goethe chama de "eterna feminilidade". Os cristãos, de acordo com suas necessidades, criaram Maria. Ainda que ela seja uma figura histórica, foi investida de todas as qualidades necessárias para satisfazer seus anseios internos. Os budistas têm Kuanon, que, independentemente de sua posição histórica, atende completamente a seus anseios espirituais.

Do ponto de vista cristão, Kuanon é uma Maria encarnada. Do ponto do vista budista, Maria é uma manifestação de Kuanon em um grupo de seres que se identificam como cristãos. A verdade é una e a humanidade a mesma em toda a parte. É meu desejo profundo que chegue logo o tempo no qual Oriente e Ocidente se unirão no culto à verdade, sem ater-se a diferenças acidentais e contradições. Reverendo Soyen Shaku, abade de Engaku-ji e Kencho-ji, Kamakura, Japão.

fonte: site bodisatva.org




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